quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Laos, uma surpresa deliciosa

Energia boa



Janela iluminada



Mercado Noturno


Templo preferido



Os monges



As criaturas fofas



Pôr do sol em Prabang




O bichão clamando por uma banana



Cachoeira especial



Lava roupa todo dia, nada de agonia


Único


Dia de peixe, ou não.


Gente local


O Laos acabou entrando de última hora no meu roteiro. Eu só tinha 5 dias para ficar no país e chegar até lá me custaria uma boa grana, por isso quase decidi continuar no Vietnã por esses dias. Mas algo lá no fundo me dizia... vai pro Laos! Resultado: sai quase chorando do país 5 dias depois, arrependida de não ter separado um mês inteiro para passar lá. O Laos é único, o Laos é zen, o Laos é demais!

Cheguei no Laos do mesmo jeito que cheguei no Vietnã, sem nenhuma reserva de hotel, sem nem saber direito para onde estava indo. Mas quando eu digo que os anjos me acompanham, eu não me engano. No vôo de Hanói para Luang Prabang conheci o Horst, um italiano simpático que se tornou um grande amigo e parceiro durante minha estadia no país. Como ele já tinha uma indicação de hostel por lá eu só precisei segui-lo.

Bom, quando eu me refiro ao Laos, me refiro mais especificamente a Luang Prabang, a cidade onde fiquei 4 dos 5 dias em que estive no país. Luang Prabang é uma cidadezinha pequena, com muita influência da colonização francesa na arquitetura e no jeito de viver do pessoal. Luang Prabang tem uma energia deliciosa, é o lugar perfeito para relaxar e simplesmente aproveitar aquela vibração pacífica e gostosa que permeia todos os metros cúbicos da cidade. É tudo tão zen que eu relaxei demais e acabei quase não tirando fotos da cidade em si. Me desliguei um pouco dessa vida de mochileira fotógrafa. Mas, se a imaginação puder ajudar, Prabang é cheia de cafeterias, hotéis de charme, restaurantes e acima de tudo, é dona de um mercado noturno que no meu ranking foi considerado o melhor mercado de rua que já estive em minha vida! Todas as noites, na rua principal da cidade, acontece esse mercado que deixa qualquer ser humano encantado. Lá a gente encontra o que há de mais bonito em artesanato local, um atentado ao senso consumista de qualquer mochileiro que não tem espaço na mochila para comprar nada.

Numa ruazinha transversal à principal, bem ao lado do mercado de artesanato, também rola uma feira de comida que é um espetáculo à parte. Comida maravilhosa a apenas 2 ou 3 dólares. Eu cheguei a ficar o dia inteiro sem comer só para ir nessa feira e me acabar com as delicias locais. Churrasco de peixe, saladas frescas com pimenta, rolinho primavera, e pra finalizar com chave de ouro, bolo de coco acompanhado do café original do Laos que é um maná dos Deuses, servido com leite condensado. (Essas experiências gastronômicas na Ásia explicam os kilos extras que habitam meu corpo!)


Feirinha de comida


Luang Prabang também é uma das cidades que proporcionalmente têm mais templos budistas em toda a Ásia. Todos os templos são lindíssimos, coloridos e cheios de vida, com monges andando pra lá e pra cá. Aqui visitei o meu templo preferido, adornado com um desenho de uma árvore enorme, linda, parecida com a minha árvore da vida.

Num dos dias por lá, eu e o Horst resolvemos alugar uma moto e dar um giro pela região. Foi um dia delicioso! Nos perdemos diversas vezes durante o percurso já que a sinalização das ruas é precária. Entre uma perdida e outra, acabamos encontrando num hospital de elefantes incrível! Lá aprendi um pouquinho mais sobre a vida desses bichões encantadores, descobri que eles comem em média 200 kilos de folhas e bananas por dia! É só na Ásia que a gente encontra um recanto de elefantes. Depois de mais uns quilômetros em nossa lambreta, encontramos o que procurávamos: umas cachoeiras famosas por aqui. Só depois que você chega nas cachoeiras é que entende porque elas são especiais. Trata-se de uma formação rochosa bem diferente das cachoeiras comuns, algo parecido com o que vi em Pamukkale na Turquia, mas coberto de água cristalina que juntamente com as rochas calcárias formam várias cachoeiras de cor esmeralda no meio da mata. Extasiante! É tão bonito que parece de mentira. Durante todo o nosso percurso de moto, passamos por comunidades locais, todas elas cheias de crianças felizes e brincalhonas. Uma criaturinha mais linda do que a outra! Parece mesmo que todo mundo por aqui vive numa “nice”.


Eu e o Horst, prontos para motocar


Eu poderia ter ficado facilmente 1 mês em Luang Prabang e não me cansaria. Tem uma série de coisas que queria ter feito por lá mas acabou não dando tempo. Queria ter desbravado mais, voluntariado na comunidade local, feito um curso de culinária, relaxado um pouquinho mais e comprado várias coisas. Ficou tudo na vontade!

Como nem tudo são rosas, no Laos eu fiz a pior viagem de ônibus de todos os tempos. Eu já tinha um vôo marcado de Vientiane, a capital do Laos, para a Tailândia, onde pegaria meu vôo para a Indonésia. Para economizar um pouco, resolvi fazer o trecho Luang Prabang a Vientiane de ônibus. Peguei um VIP Bus achando que estaria razoavelmente confortável. Doce ilusão. Quando entrei no ônibus, quase desisti de viajar, um odor de peixe inacreditável! E isso foi só o começo. Foram 10 horas de viagem noturna torturante. Não entendi ao certo porque, mas a maioria do tempo o motorista deixou rolando uma música horrível no último volume. Para quem tem o mínimo de claustrofobia, aquilo era um inferno. Um ônibus fedido, com uma música alta ensurdecedora, viajando por 10 horas na estrada mais sinuosa que já passei. Tomei um dramin para ver se dormia mas não adiantou em nada, as condições eram tão precárias que nem o sono veio me acompanhar nessa aventura. Enfim, eu sobrevivi a mais uma!

Chegando em Vientiane tive uma sorte imensa nas poucas horas que fiquei por lá antes do meu vôo para Bangkok. Conheci uma menina querida da África do Sul, a Érica, que manjava bastante da cidade e fez questão de me levar nos principais templos e pontos turísticos da capital. Ainda aprendi com ela alguns fundamentos da religião budista. Descobri que cometi uma gafe horrível quando fui dar tchau para um monge simpático e ofereci a minha mão para me despedir. A Érica me explicou que os monges são proibidos de ter qualquer contato físico com mulheres, só aí é que entendi porque o mongezinho ficou todo sem graça e deu as costas pra mim quando eu estiquei a mão. Bola fora da Dona Mariana.

A Érica foi um anjinho que passou pela minha vida brevemente. Uma pessoa de coração imenso. Ela me despertou ainda mais essa vontade de entender um pouco mais sobre as religiões do mundo, um tema que me desperta atenção desde que me conheço como gente. Fico fascinada cada vez que escuto alguém falando de sua fé, de suas crenças. Chego cada vez mais à conclusão de que as religiões são todas lindas, cheias de pontos de contato entre elas e diferenças coloridas. É uma pena que essas diferenças coloridas muitas vezes são frutos de guerras e desavenças cinzentas.



A Érica em um templo budista


O Laos foi a experiência mais “express” de toda a viagem porém foi tudo muito marcante. Ainda bem que minha intuição não falhou e me levou pra esse país peculiar e tão especial. Quem sabe um dia ainda volto pra lá. Cada vez chego mais a conclusão de que o Mundo é bão, Sebastião!

Próximo destino: INDONÉSIA.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Vietnã - sem lenço e sem documento

Vietnã - sem lenço e sem documento








Hanói - Insana mas hospitaleira




Hanói - O trânsito maluco



Hanói - Descanso na calçada




Hanói - Peixaria na calçada





Hanói - Almoço em família na calçada






Hanói - Açougue na calçada




Hanói - Barbeiro na calçada




Halong Bay e as milhares de ilhas




Halong Bay





Sapa - quanta cor!



Sapa - eu quero essa boneca!




Sapa - que alegria!




Sapa - Campos de arroz





Sapa - Única



Sapa - Na concentração




Sapa - No pensamento






O Vietnã foi uma aventura e tanto.

Durante o período em que estive lá constatei que a gente realmente muda alguns paradigmas ao longo da vida. Antes de começar a volta ao mundo, meu conceito de viagem sempre esteve totalmente atrelado a um planejamento prévio intenso, considerando impreterivelmente todas as reservas de hotéis, passeios, passagens...

Durante minhas caminhadas mundo afora percebi como também é legal relaxar e deixar as coisas acontecerem naturalmente, deixando os ventos e as boas vibrações tomarem conta da sua vida e esquecer um pouco os planejamentos severos e as planilhas de Excel.

Minha chegada ao Vietnã foi uma loucura... cheguei em Hanói, sem lenço e sem documento, a noite, sem lugar pra ficar. Mais uma vez, deixei tudo por conta do destino e de Deus! Sempre que opto por viajar desta forma, incrivelmente tudo acaba dando super certo no final. Não foi diferente desta vez.

Meu vôo de Phnom Penh para Hanói tinha uma escala em Vientiane, capital do Laos. A princípio, essa escala me parecia um pouco inconveniente já que o vôo que era pra durar uma hora passou a durar duas horas e meia. Mas a paradinha acabou sendo conveniente e estratégica, coisas do destino! Explico: na escala em Vientiane, acabei conhecendo o Rodrigo, um brasileiro que está morando no sudeste asiático. Descobri que ele era brasileiro porque ele tava usando uma mochila com uma etiquetinha do Brasil. Bem na cara-de-pau fui lá perguntar se o cara era brasileiro... não é que era mesmo! Conversei um pouquinho com ele e em seguida entramos no avião, acabamos sentando longe um do outro e não nos falamos mais durante o vôo.

No vôo de Vientiane para Hanói, sentei próxima a um casal de americanos “bicho grilo”, o John e a Nataly, que também estava sem paradeiro em Hanói. Como estávamos na mesma situação, combinamos de rachar o taxi do aeroporto até o bairro Old Quarter, região onde os turistas costumam ficar na capital do Vietnã. Chegando em Hanói, já estávamos prestes a pegar o taxi quando o Rodrigo ressurgiu das cinzas. “Você quer uma carona? Meu motorista pode te levar até o seu hotel.” Santo Rodrigo. Ainda perguntei se o casal de americanos poderia aproveitar a carona. Duplamente santo Rodrigo. A viagem do aeroporto até o centro de Hanói durou mais de uma hora, o que significa que uma corrida de taxi sairia uma pequena fortuna. Santo Rodrigo, santa escala, santo destino.

Eu e os americanos nos despedimos do Rodrigo e desembarcamos em pleno Old Quarter às 21h, na insana Hanói. Não sabíamos direito nem por onde começar a procura por um lugar pra ficar naquela noite. Foi aí que o John teve uma brilhante idéia: eu e Nataly ficaríamos num café bebendo algo e ele iria procurar um lugar para nos hospedarmos. Santo John! Tudo o que eu precisava nesse momento era alguém para procurar um lugar para eu dormir. O John acabou achando o lugar perfeito para uma boa noite de sono. Um hotel de charme, com um quarto só pra mim, super confortável, com internet no quarto, ar condicionado, TV internacional, banheira hidromassagem, toalhas cheirosinhas e café da manhã incluso. Um paraíso para uma mochileira. Sem dúvida, este hotel foi o melhor lugar que fiquei desde a viagem pela Europa com os “paitrocinadores”.


Como vocês podem ver, tudo começou muito bem no Vietnã. A boa notícia é que tudo continuou dando certo até o final! Como tinha pouco tempo para desbravar o país, resolvi colocar no meu roteiro apenas Hanói – a capital, Halong Bay – a baía de 3 mil ilhas, e Sapa – a região das plantações de arroz e do artesanato.

A primeira impressão de Hanói foi simplesmente caótica! Quando a gente pensa que já viu o trânsito mais louco do mundo na China ou no Camboja, você chega em Hanói e conclui que nenhuma loucura de tráfego se compara ao Vietnã. Dizem que o único páreo para o trânsito do Vietnã é a Índia, que eu ainda não tive a oportunidade de conhecer. As motos são praticamente um enxame de abelhas enfurecidas que surgem por todos os lados e cantos. As buzinas fazem parte do cenário sonoro durante 100% do tempo, a barulheira é simplesmente constante. No começo aquilo tudo é um desespero, estressante, “enxaquecante”. Depois de um dia ou dois dias assim, neste estado de alerta e desconforto, o corpo relaxa e os olhos começam a enxergar a realidade local por trás deste caos.

Em Hanói tudo acontece nas ruas. As calçadas são dominadas pelas motos estacionadas, por gente, por cadeiras, por mesas, por comércio. Todo mundo se alimenta sentado nas sarjetas das ruas, no meio daquela bagunça organizada. Caminhar pela cidade é uma experiência única, é preciso estar atento a todos os lados para não ser atropelado por uma moto, para não atropelar nenhum local sentado na calçada, para não deixar de apreciar esse jeito extasiante de viver.

O povo vietnamita é extremamente nacionalista e orgulhoso de sua identidade. E não é à toa... eles têm uma história de guerras e vitórias que os caracterizam um povo batalhador e muito unido. Desde as tentativas de dominação francesa a chinesa, e inclusive na guerra contra os Estados Unidos mais recentemente, o Vietnã mostrou sua soberania como nação forte e guerreira.

A questão política no país é algo curioso. O Vietnã vive num estado político de dicotomia. Enquanto o partido comunista ainda tem grande influência no país, inclusive é o partido do atual presidente, o capitalismo já é a ideologia que na prática está em plena atividade. Mc Donalds, KFC, Coca Cola estão por todos os lados.

De Hanói parti para Halong Bay, uma das regiões mais famosas e turísticas do Vietnã em função de sua paisagem peculiar. São mais de 3 mil ilhas e ilhotas ao redor de uma baía enorme, mais um patrimônio da Unesco para a minha listinha. Confesso que fiquei um pouco decepcionada com Halong Bay, a paisagem é realmente linda, mas a quantidade de turistas chega a ser infernal. O mais triste é que Halong Bay me pareceu uma terra de ninguém, sem grandes controles ou cuidados com esta beleza natural. Mas de qualquer forma valeu a pena ter ido até lá, o cenário é bonito e acabei conhecendo um monte de gente legal no barco em que fiz o passeio.

Meu último destino no Vietnã foi Sapa, foi também o meu preferidíssimo, entre os top 10 lugares que visitei durante a viagem toda. Para chegar a Sapa é preciso fazer uma viagem de trem que dura 10 horas. Lá fui eu encarar mais um trem. Para a minha grande felicidade, essa foi a melhor viagem de trem de todos os tempos, consegui dormir na maior parte do tempo. Sapa é uma cidadezinha pacata, que vive em função do turismo, do artesanato e das plantações de arroz. Ali vivem diferentes tribos, que se vestem com muita cor e vida, tornando a cidade linda e cativante. As mulheres das tribos vivem em função da venda de seu artesanato, elas lotam as ruas e praças com panos, bolsas, calças e tudo o que se pode imaginar, tudo feito a mão. Tudo o que elas vendem também é colorido, o cenário local é mágico, um prato cheio para as fotografias. As paisagens dos campos de arroz também são belíssimas, degraus e mais degraus desenhados nas montanhas, cobertos de plantações verdinhas. Algo totalmente surreal para qualquer ocidental que ainda não tinha visto uma plantação de arroz. Pra finalizar, Sapa é bem mais relaxada do que Hanói. As buzinas até existem, mas uma lá e outra acolá. Todas aquelas cores vibrantes misturadas com o visual dos campos de arroz fazem de Sapa uma parada obrigatória para qualquer visitante em Hanói.

Pra finalizar, na volta de Sapa ainda passei um dia em Hanói e aproveitei para fazer um curso de culinária vietnamita. Para a minha sorte, eu era a única aluna naquele dia e acabei tendo uma aula particular, com direito a visita no mercado local e tudo. Aprendi a fazer várias comidinhas gostosas, mas a campeã para mim foi a salada de mamão verde!

Aguardem a nova chef Mariana quando eu chegar ao Brasil, vou apresentar meus novos dotes culinários!





quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Camboja, um país que tenta se reconstruir

Chegando no Camboja, fronteira com Tailândia




Marcas do Khmer Rouge


Desespero



Escola-Prisão-Museu Tuol Sleng




Um matinho por um trocadinho




Gente que sobreviveu




Gente que batalha pra sobreviver





O futuro do país






Anghor Wat




Ta Prohm - Angkor




Ta Prohm - Angkor



O Camboja foi sem dúvida o país que mais me chocou durante os últimos 6 meses de viagem. Acredito que pouca gente saiba, mas o Camboja tem uma história recente tristíssima, marcada por um regime de terror que matou aproximadamente 30% da população, um índice absurdo que está bem acima das matanças cometidas durante o governo nazista de Hitler.

Entre os anos de 1975 a 1979 (há apenas 30 anos!), o partido comunista Khmer Rouge assumiu o poder do Camboja depois de quase 5 anos de guerra civil. O líder deste partido comunista, Pol Pot, queria instaurar uma sociedade 100% agrária e igualitária. Para atingir seu objetivo, instaurou um regime comunista totalitário que dizimou a população intelectual do país. No regime Khmer Rouge, não poderia haver nenhuma diferença de riqueza, nem intelectual, nem cultural, nem religiosa. Estima-se que mais de 20 mil professores tenham sido mortos, 90% dos monges budistas e 20% dos médicos do país. Não existe um número oficial de mortos durante o regime Khmer Rouge, mas a conta de óbitos passa dos 2 milhões, sendo que na época o Camboja tinha apenas 7 milhões de habitantes. O pior de tudo é que o regime foi apoiado e financiado pela China durante 4 anos. O período de terror só acabou em 1979 com a invasão dos vietnamitas no país e intervenção tardia da ONU, que demorou demais para agir.

Para entender um pouquinho da história do país, resolvi ler o bestseller do Camboja chamado “First they killed my father”, escrito por Loung Ung, uma sobrevivente do inferno que aconteceu no país. Comprei este livro de um rapaz sem pernas, entre milhares de pessoas na mesma situação que ficam nas ruas tentando vender livros e postais. Confesso que ao ler o livro e entender um pouco do tamanho da ganância do ser humano e da força do jogo de interesses comerciais, acabei ficando meio triste e desiludida com o futuro da humanidade. Ainda assim, recomendo a leitura.

Em Phnom Penh, capital do Camboja, visitei um dos principais campos de concentração onde milhares de pessoas foram mortas durante o regime. Também fui a uma escola que durante o período Khmer Rouge foi transformada em um a prisão. A prisão virou museu e atualmente exibe uma mostra de fotos de diversas pessoas que foram torturadas e mortas ali. Sem dúvida, um programa bem triste, mas indispensável numa visita ao Camboja. Impossível não querer se interar da história do país estando ali tão próximo disso tudo. Impossível não se emocionar, impossível não se revoltar, impossível não se questionar.

O Camboja ainda vive às margens desta história sangrenta e tenta se reconstruir aos poucos. As feridas ainda estão abertas, a pobreza é dominante e generalizada. Ao sair nas ruas, os turistas são abordados por centenas de adultos, crianças e idosos locais clamando por esmolas. Dói o coração. Todos têm uma história triste para contar sobre o período do Khmer Rouge. As famílias permanecem despedaçadas e o país em construção. Desde 1993, o sistema político do Camboja é uma monarquia constitucional, mas quem reina mesmo é a corrupção.

Ainda assim, o Camboja tem uma parte linda que fiz questão de deixar pra contar por último: as ruínas dos templos de Angkor Wat, a maior construção religiosa do mundo! Entre os séculos 9 e 13, esses templos foram construídos em homenagem aos deuses hindus. Falando assim, a princípio parecem ser templos comuns, mas ao visitar Angkor Wat fica evidente a perfeita combinação de magnitude, criatividade e devoção espiritual do povo cambojano. Angkor é enorme, é incrível, é divino. Angkor é uma das coisas mais lindas que já vi na vida. Para visitar esta cidade de templos é preciso ao menos 3 dias completos, mas o ideal mesmo é fazer o desbravamento em uma semana, com calma e disposição para andar debaixo de muito sol. Pra mim, o ponto alto de Angkor foi Ta Prohm, um templo que está sendo literalmente digerido pela natureza, uma simbiose surreal do humano com o natural... árvores e raízes enormes saem pelas janelas e tetos dos templos. Estupendo!

Angkor é o coração e a alma do Camboja, um orgulho nacional para todos os cambojanos que tentam se inspirar nessa obra magnânima para esquecer os anos de terror e trauma no país.

Sem dúvida, o povo é outro grande destaque do país. Fiquei maravilhada com a capacidade desta gente ser solidária e feliz mesmo com uma história recente de dor e tristeza. As pessoas são queridas, são sinceras, são sensíveis. Se apegam a qualquer um que tenha um pouco de paciência para escutá-los. Adoram uma conversa e são simplesmente fascinados pelo Brasil.

Pheng-Kruy foi meu moto-taxista particular durante alguns dias no Camboja. Conversamos bastante, aprendi muito e demos muitas risadas juntos. Contei sobre a vida no Brasil e nossos costumes. Cada vez que contava algo sobre minha vida, ele ficava vidrado escutando. Pheng-Kruy não cansava de dizer que eu era a “chefa” mais encantadora que ele já tinha conhecido. Gostou tanto de mim que na última corrida para o aeroporto me fez um pedido: que eu não andasse mais de moto durante minhas andanças pelo mundo, que deixasse esse posto somente para ele em minhas lembranças. Quanta graça, quanta sensibilidade deste povo sofrido que ficou guardado em meu coração.